Trans crucificada na Parada Gay




A trans crucificada na Parada, ou a blasfêmia que não existe

por João Marinho

É duro ser óbvio.


Mas uma performance artística como a da Viviany utilizou um forte simbolismo que não é cristão, é universal: a crucificação, de Cristo, como forma de martírio dos excluídos.

Esse simbolismo aparece ao longo de toda a história ocidental nas artes, na filosofia e em numerosas outras instâncias – e nunca foi monopólio das igrejas. Aparece até em países não ocidentais e não cristãos.

É tão correto e universal utilizar esse simbolismo quanto utilizar os simbolismos trazidos pela mitologia grega, por exemplo – que, igualmente, estão presentes nas artes, na filosofia, na psicologia e, vejam só, até nas produções de pensadores cristãos!

Será que Freud precisou ser um grego converso e consultar o Oráculo de Delfos para fazer referência a Eros e Psique e até nomear alguns elementos da psicanálise assim?

Será que, quando você chama uma pessoa de "Judas", não está fazendo uma referência ao simbolismo da traição, mas dizendo categoricamente que está prestes a ser morto numa cruz porque aquela pessoa acabou de vender você por algumas moedas de prata (boa sorte em encontrar a pena de cruz em pleno século 21, aliás)?

O que é cristão é tão-somente a crença no sacrifício de Cristo como redentor dos pecados e a natureza divina de Cristo. Assim mesmo, nem esta última é considerada correta por todos: as testemunhas de Jeová, por exemplo, acreditam na redenção dos pecados por meio do sacrifício, mas rejeitam a divindade de Cristo.

Com esta parte religiosa, a Viviany não mexeu em nada. Por caso, ela se posicionou como uma nova Salvadora da humanidade?

Ela pregou um novo Evangelho? Recrutou doze novas apóstolas (dica: não é autodeclarado "apóstolo", por acaso, o organizador da "Marcha para Jesus"? A se pensar...)?

Por acaso, ela disse que estava, na Parada, crucificada para salvar o mundo do pecado? Por acaso, ao menos, ela disse que o sacrifício de Cristo nada valia e que o dela é que deveria ser considerado em seu lugar?

Não.

E ela só poderia ser considerada blasfema, pelos dogmas cristãos, se tivesse dito qualquer dessas coisas – e abram parênteses, porque ser blasfema é direito de liberdade de expressão também.

Viviany, no entanto, não mexeu com nenhum desses dogmas. Fez uma representação artística, buscando inspiração no simbolismo universal da morte de Cristo como martírio dos excluídos da mesma forma que MILHARES de pensadores, artistas, filósofos e religiosos, até de outras religiões, já fizeram antes – e utilizou esse forte símbolo para fazer uma denúncia social contra a intolerância religiosa que vitima LGBTs todos os dias.

Ora, não precisa "ser mais cristão" que ninguém para fazer uso desse simbolismo. Não precisa ser "mais cristão que todos os outros" para entender esse simbolismo que, como acabei de mencionar, foi utilizado até por sábios de outros credos.

O espanto, isso sim, é que os próprios cristãos não entendam o uso do símbolo e tratem como "blasfêmia" aquilo que nem mesmo sua doutrina autoriza a tratar como.

E se vamos falar de imposição, sinceramente, quem precisa rever conceitos são os cristãos.

Defendemos aqui uma representação simbólica da morte de Cristo e a denúncia social que ela traz. Não estamos rejeitando o direito de os cristãos exercitarem sua fé por causa dessa defesa.

Já você, caro cristão fundamentalista, critica a manifestação da transexual, dizendo que "foi desrespeitosa", "agressiva", porque a crucificação é "santa e superior".

Ora, eu não acredito que o simbolismo da crucificação é "santo e superior" – e, no entanto, defendo o direito de utilizá-lo tanto quem acredita que é quanto quem não acredita que é.

você defende que quem não acredita na mesma "santidade" que você se abstenha de fazê-lo, apenas porque você e sua comunidade acreditam nela.

Quem é que está impondo seu credo a outros mesmo?

E se quiserem prova do que digo, leiam o que diz a própria Viviany Beleboni: http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/06/tudo-bem-encenar-a-paixao-de-cristo-mas-quando-e-uma-travesti-nao-pode-nao-e/

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Quanto aos gays que fazem coro a Feliciano e afins, só tenho a dizer uma coisa: lamentável!

Vira e mexe, aparecem com aquele discurso de que a "Parada perdeu o propósito", de que "é só festa e deveria ser política", que deveria "reivindicar em fez de tocar música e haver pessoas fazendo sexo".

Aí, quando alguém faz uma denúncia política e social por meio da arte e de um símbolo forte e universal, reclamam porque "foi desrespeitoso" e "há outros meios de exigir respeito"?

Querem um dica? Vão, então, à Parada LGBT do próximo ano e proponham esses "outros meios". Garanto que nós outros, e a Viviany, muito nos aproveitaríamos de suas iluminadas sugestões.

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